domingo, 3 de abril de 2011

A Morte do guerreiro da burguesia e as lágrimas da "esquerda" domesticada

Recebemos através de amigos do blog um pequno texto sobre o falecimento do ex-presidente da república, José Alencar, publicado pel PCdoB [1], acompanhado de um breve comentário de Caio Navarro de Toledo, Doutor em Filosofia, fundador da Revista Crítica Marxista e, acima disso, um Comunista.
Resolvemos publicá-lo para estimular o debate e a denúncia do descarado seguidismo da burguesia, que transformou aquilo que no passado foi esquerda na bandinha de música  das classes dominantes e/ou da ala radical do nacional desenvolvimentismo.
Convidamos a todos os camaradas para debater e desmascarar aquilo que usurpa as nossas cores e nossas bandeiras para defender a exploração e repressão das classes dominadas.

Colegas,

em Editorial do portal do PCdoB, presta-se uma última homenagem a um "guerreiro do Brasil" - aquele que, mascate no passado, transformou-se num dos maiores empresários do continente. Certamente, como aprendemos em todas hagiografias seculares sobre os self-made man, José Alencar chegou a ser uma das maiores fortunas do continente graças apenas a seu TRABALHO honrado e honesto, sem qualquer apoio de dinheiro público e transações suspeitas (afinal, todas as denúncias de ilicitudes contra a Coteminas não foram sempre pérfidas "intrigas políticas"?).
Enfim, nos "tempos globais", um modelar empresário burguês nacionalista e progressista; um raro e exemplar capitalista em cujas empresas as realidades da exploração do trabalho e da mais-valia jamais existiram.
As copiosas e amargas lágrimas de Lula e setores da esquerda não estariam, pois, plenamente justificadas pela morte desta autêntica "VOZ DO POVO" brasileiro, como afirma o Editorial ?

sds,

Caio N. de Toledo
Fundador da revista CRÍTICA MARXISTA

Alencar, guerreiro do Brasil

O Brasil perdeu nesta tarde um de seus filhos mais ilustres e reverenciados, o ex-vice-presidente da República José Alencar, levado por um câncer ao qual resistiu durante 13 anos e 17 cirurgias que retiraram 20 tumores de seu corpo.

Ele nunca se rendeu, e esta talvez tenha sido a característica mais marcante deste personagem que entra para a história armado de amor pelo Brasil. Foi um brasileiro com a cara dos brasileiros: começou a trabalhar cedo, em sua Muriaé, no interior mineiro. Primeiro na loja do pai, quando tinha sete anos de idade; depois, no primeiro emprego, aos 14. Tinha pouco mais de 18 quando abriu sua primeira loja, em Caratinga. E daí até se tornar proprietário de um dos maiores grupos têxteis brasileiros, a Coteminas, foi outro tanto: tinha 35 anos quando participou de sua fundação.

Era um grande empresário, portanto, quando Lula o escolheu como vice na eleição de 2002. Houve resistência, mas o acerto da escolha logo ficou evidente: Alencar era um dirigente empresarial importante e respeitado e um senador (foi eleito pela primeira vez em 1993, com 62 anos de idade!) de enorme prestígio, e, ao mesmo tempo, um militante da causa do Brasil e de seu povo. Foi uma espécie de ponte entre a candidatura das forças avançadas e progressistas com empresários que temiam o fantasma de um presidente operário.

José Alencar encarnou, partilhando a Presidência da República com Lula, uma espécie de reedição da aliança, buscada desde a década de 1950, entre o grande empresariado industrial nacional e os trabalhadores. Com a diferença sensível de que Alencar, sendo um grande empresário, se distinguia entre seus pares pela coragem política de tornar essa aliança efetiva, como deixou claro durante os oito anos em que partilhou a presidência com Lula. Era mais uma voz do povo, dos que produzem e trabalham, dentro do governo. Uma voz bem humorada mas afiada e altissonante, que ajudou a construir o êxito do primeiro governo brasileiro dirigido por um operário e sindicalista.

Era um político e líder empresarial que tinha um projeto e esse projeto era o Brasil. Talvez tenha sido a encarnação contemporânea daquilo que, no passado, se chamou “burguesia brasileira”, só que com mais determinação, clareza e coragem. Que, num ambiente empresarial extremamente conservador, sempre apoiou e defendeu o Partido Comunista do Brasil – amizade soldada pelo projeto comum de defesa do país e do povo.

José Alencar, que da mesma maneira como o presidente Lula, teve origem nas camadas mais pobres da população, homem do interior que nunca rompeu com o sonho de um país progressista, democrático e moderno, foi um guerreiro. No governo, jamais vacilou na luta contra o vampirismo financeiro que, através das altas taxas de juros, exaure os trabalhadores, o setor produtivo e a nação. E batia duro naqueles que, dentro e fora do governo, defendiam, aplicavam e se beneficiavam dessa política que sempre denunciou como uma agiotagem imposta ao país.

Ao longo dos oito anos em que serviu ao país como vice-presidente, diluiu todas as desconfianças manifestadas no momento de sua escolha como companheiro de chapa de Lula e ganhou o amor de seu povo.
 

3 comentários:

Felipe disse...

Camaradas, ótima denuncia! As fazendas de Alencar já entraram para as listas de TRABALHO ESCRAVO no Brasil contemporâneo! Isso serve para nos lembrarmos o quão regredido está o patamar da luta ideológica no Brasil, legado deixado pelos 30 anos de hegemonia do PT, que como os camaradas do blog sempre colocam, já há muito deixou o "campo do reformismo" (se é que podemos falar assim) para defender diretamente os interesses das classes dominantes. Acho que essa regressão pode ser vista em diversos outros assuntos, como a visão dos usineiros como heróis, a discussão tímida e enviezada sobre os crimes da ditadura militar no Brasil, a idéia de que o nosso "desenvolvimento" beneficia todas as classes e etc. O mais triste é que, na ausência de qualquer força política minimamente crítica, esse tipo de mistificação barato produzido pela mídia ganha força entre o povo, tem um peso ideológico tremendo. Nosso papel é exatamente esse, de retratar essas cenas de teatro como elas são, na dureza dessas palavras do título do post.

John kennedy disse...

Grande Caio

Gabriel disse...

Camaradas, saudações.
Venho somente para felicitá-los pelo novo visual do blog. Ficou não apenas mais bonito, mas tornou mais fácil e agradável a leitura dos textos. Parabéns.