domingo, 4 de janeiro de 2009

Algumas lições da crise para a nossa luta

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A crise prolongada que o imperialismo vem atravessando nas últimas décadas entrou, desde agosto de 2007, em sua fase aberta. A superacumulação generalizada de capitais sem condições de serem aplicados na produção à taxa de lucro média obtida em períodos anteriores, somada à gigantesca destruição de capital fictício e ao travamento dos circuitos de crédito (interrupção da acumulação do capital portador de juros), tornam a crise atual a maior e mais importante desde 1929.

Com esta crise se agravam todas as contradições constitutivas do capitalismo: o aumento da exploração da classe operária e demais classes dominadas; o agravamento dos conflitos interimperialistas; a ampliação das contradições desses países imperialistas com os povos dos países dominados; além da extensão da centralização de capitais, o que reforça o caráter monopolista do capitalismo em sua fase imperialista. Além disso, a “esquerda” reformista e revisionista torna inteiramente explícito de qual lado se posiciona na contradição burguesia/proletariado, ao defender as reformas que julga necessárias para salvar o capitalismo da crise e, quando no poder, criar efetivamente medidas para beneficiar o capital.
A atual fase da crise do imperialismo permite, portanto, à classe operária tirar inúmeras lições para instruir sua luta.
1ª lição: a farsa da “teoria” econômica burguesa.

A primeira lição ressoa do mar de lamentações em que se transformaram os periódicos burgueses, aparelhos ideológicos da burguesia: é a de que a burguesia não tem nenhuma condição de elaborar qualquer coisa parecida com uma teoria que explique a sua crise.Só para exemplificar, tomemos o último livro de Alan Greenspan [A Era da Turbulência: aventuras em um novo mundo. Capítulo especial: epílogo sobre a crise americana. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2008], o ex-todo poderoso presidente do banco central dos Estados Unidos nos governos Reagan, Bush pai, Clinton e Bush júnior. Como esse expoente da ideologia econômica burguesa, do livre mercado, da globalização e do neoliberalismo avalia a crise? “O estopim fora a subprecificação do risco” (pg. 4). “Foi a incapacidade de atribuir preços adequados a esses ativos arriscados que prepararam o palco para a crise” (pg. 17). Suas causas, então, seriam “práticas lenientes e fraudulentas na concessão de empréstimos hipotecários, securitização indiscriminada de produtos de crédito e uso excessivo de recursos arriscados de curto prazo para o financiamento de ativos de longo prazo” (pg. 54). Além dessas causas, digamos “técnicas”, há outro fator para a crise segundo Greenspan, que resume espetacularmente a falência da ideologia econômica da burguesia: “fobias humanas” (pg. 62), pois “Um dia, a subprecificação do risco teria de colidir com a aversão ao risco, inerente ao ser humano: a crise era uma certeza psicológica” (pg. 45).
Como bem assinala Suzanne de Brunhoff, a ideologia da burguesia, aquilo que eles vendem enquanto teoria econômica, só serve para ocultar os processos reais através dos quais o capitalismo se desenvolve, ocultar a exploração capitalista.

Por pensamento ‘acadêmico’ (chegaremos também a utilizar a expressão ‘pensamento burguês’), entendemos todo o conjunto de noções que não permite, impedindo mesmo, compreender o modo de funcionamento do capitalismo; e isto em oposição ao materialismo histórico como ‘crítica da economia política’ assumindo seu próprio ponto de vista de classe.” (BRUNHOFF, Suzanne de. A Política Monetária: Um ensaio de Interpretação Marxista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, pg. 19).

Não são só os “teóricos” da burguesia que ficam lamentando os fatos, desesperados diante da crise, mas também aqueles que se dizem de “esquerda” não são capazes de ultrapassar o simples rol dos fatos e ficam chorando pelo leite derramado, maldizendo que o capitalismo não seja capaz de se reformar.
Como afirma, repetidas vezes, José Luís Fiori em seu livro O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações [São Paulo: Boitempo, 2007] ao analisar o programa e as políticas dessa “esquerda” que buscam:

um ‘capitalismo organizado’ ... passaram a apostar e lutar pelo sucesso do capitalismo, como estratégia para criar empregos e financiar suas políticas distributivas. A esquerda passou a ser desenvolvimentista e a defender e praticar políticas econômicas pró-capital ou ‘pró-desenvolvimento = pleno emprego” (pg. 195).

um desenvolvimento acelerado do capitalismo, como melhor forma de distribuir a riqueza sem tocar na propriedade privada. E como conseqüência passaram a defender e praticar as políticas econômicas que favorecessem ao aumento da lucratividade do capital – quaisquer que fossem – desde que estimulassem ou permitissem o aumento da produção, da possibilidade de uma redistribuição fiscal a favor do mundo do trabalho e de mais proteção social” (pg. 246).

Nesse campo, “esquerda” e direita caminham com o mesmo objetivo. A direita voltando a empunhar o nome de Keynes e a “esquerda” retomando o sonho de Kautsky organizar um capitalismo “limpinho”, um capitalismo regulado, aquilo que alguns chamam de capitalismo utópico. Aqui os novos ideólogos do capital se encontram com os novos renegados, todos buscando um capitalismo “limpinho”, que garanta a taxa de lucro, sem se importar com o fato de que isso significa, necessariamente, a manutenção da exploração da classe operária e demais classes dominadas.

2ª lição: A subsunção da burguesia e do proletariado ao capital.
O que tanto essa “esquerda” quanto a direita desconhecem é que, como Marx mostra sobejamente n’O Capital, tanto a burguesia quanto o proletariado são subsumidos no movimento do capital.

Apenas na medida em que é capital personificado, tem o capitalista valor histórico e aquele direito histórico à existência que, como diz o espirituoso Lichnowski, nenhuma data tem. Somente nessa medida sua própria necessidade transitória está embutida na necessidade transitória do modo de produção capitalista (...) Apenas como personificação do capital, o capitalista é respeitável. Como tal, ele partilha com o entesourador o instinto absoluto do enriquecimento. O que neste, porém, aparece como mania individual, é no capitalista efeito do mecanismo social, do qual ele é apenas uma engrenagem. Além disso, o desenvolvimento da produção capitalista faz do contínuo aumento do capital investido numa empresa industrial uma necessidade e a concorrência impõe a todo capitalista individual as leis imanentes do modo de produção capitalista como leis coercitivas externas. Obriga-o a ampliar seu capital continuamente para conservá-lo, e ampliá-lo ele só o pode mediante acumulação progressiva.”. (KARL, Marx. O Capital. Vol. I, tomo 2, tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1984, pg. 172 – Os Economistas).

Do ponto de vista social, a classe trabalhadora é, portanto, mesmo fora do processo direto de trabalho, um acessório do capital, do mesmo modo que o instrumento morto de trabalho (...) O escravo romano estava preso por correntes a seu proprietário, o trabalhador assalariado o está por fios invisíveis. A aparência de que é independente é mantida pela mudança contínua dos patrões individuais e pela fictio júris do contrato.” (KARL, Marx. O Capital. Vol. I, tomo 2, tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1984, pg. 158 – Os Economistas).

Isto quer dizer que a lei do valor, a necessidade de acumulação crescente de capitais, a busca incessante do lucro, a tendência a centralizar capitais, impondo os monopólios (modificando e acentuando a concorrência), são leis férreas do modo de produção capitalista que se impõem a todos, submetendo tanto burgueses quanto trabalhadores. E isso, veja só, sem “respeitar” os delírios utópicos e infantis dos reformistas de querer submeter o capitalismo a uma reforma como a que a Emília quis impor à natureza. As laranjas que já nasceriam sem casca, prontas para comer, são fábula equivalente ao pedido de Lula para que os empresários cortem os lucros antes de demitir.
A luta de classes está marcada, também, por essas leis, com a burguesia lutando para mantê-las e reforçá-las, e a classe operária, por aboli-las, superando o capitalismo e sua exploração. O desconhecimento das leis do capitalismo, do funcionamento da sociedade, implica subjetivismo e reformismo, adversários ferrenhos das classes dominadas em luta pela superação revolucionária do capitalismo.

3ª lição: As “políticas” do Estado capitalista servem ao capital.
Por isso não faria mal se a nossa “esquerda” eclética, alegórica, pândega, fosse ler, além de Marx, Engels e Lênin, os trabalhos de Suzanne de Brunhoff, velha comunista, que poderia lhes ensinar que a tentativa de organizar, regulamentar a reprodução do capital é inócua, as políticas econômicas da burguesia, a política financeira, a política monetária, surgem post factum, para organizar, facilitar, sancionar o movimento necessário do capital, o processo de reprodução do capital que como mostra Marx obedece as “leis imanentes do modo de produção capitalista”.
Não é a política econômica que dirige o capital, é o movimento necessário do capital atendendo a determinação imperiosa de suas “leis imanentes” que determina a política econômica.

“(...) a política monetária vê-se a si mesma como uma atividade política ofensiva. Em realidade, ela só pode corresponder à uma prática estatal defensiva. Por meio das regras formuladas pela política monetária, o Estado apresenta-se simultaneamente como o promotor e o garante da coerção monetária, quando na verdade ele só toma conhecimento dela no momento em ele próprio é atingido. (...)” (BRUNHOFF, Suzanne de. A Política monetária: uma tentativa de interpretação marxista. Tradução de Ricardo Brinco, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, pg. 27 – Coleção Economia; v. 3).

Marx e Engels já constatavam desde o Manifesto do Partido Comunista que o Estado é o comitê executivo da burguesia, tese marxista fundamental reafirmada por Lênin, e que tanto temor e horror causa à nossa “esquerda” bem pensante. E nunca como hoje, na crise aberta do capitalismo (onde já vimos o Estado dar dinheiro a um banco para comprar outro, comprar agências hipotecárias e empresas de seguros, ajudar montadoras de automóveis, comprar títulos de quaisquer empresas em dificuldades, reduzir impostos sobre as empresas, modificar as leis ou tomar medidas contra elas, sempre em favor do capital), foi tão escancarado o fato de que o papel do Estado é o de garantir a reprodução do capital em geral.

“(...) O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa (...)”. (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Lisboa: Edições Avante, 1997, pg. 38 – Biblioteca do Marxismo-Leninismo).

“As formas dos Estados burgueses são extraordinariamente variadas, mas a sua essência é apenas uma: em última análise, todos estes Estados são, de uma maneira ou de outra, mas necessariamente, uma ditadura da burguesia”. (LENIN. O Estado e a Revolução, in: Obras Escolhidas Tomo2. São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1980, pg. 245).


4ª lição: Os aparelhos ideológicos a serviço do capital.

O sistema imperialista está usando de todos os recursos de seus aparelhos ideológicos para apresentar a atual fase da crise do imperialismo enquanto resultado da falta de regulação, dos excessos dos especuladores, ou como faz Lula, como uma crise dos EUA, etc., enquanto de outro lado a “esquerda” colabora defendendo que a crise é a falta de uma “governança democrática”, seja lá o que isto signifique, ambos buscando encobrir o verdadeiro significado da crise: crise da estrutura do sistema capitalista.
Com o objetivo de encobrir o real alcance da crise, crise da incapacidade de reverter a tendência à queda da taxa de lucros, os ideólogos do capitalismo tentam caracterizá-la como crise dos subprime, dos títulos podres, como uma crise restrita a um “setor especulativo”, a um setor financeiro, encobrindo que a crítica marxista demonstra que as esferas da circulação financeira ou fictícia são inseparáveis, em sua unidade dialética, da esfera da circulação produtiva.
Neste ponto, é interessante observar como funcionam os aparelhos ideológicos e os mercenários a seu serviço. Depois de passarem mais de vinte anos inculcando a idéia de globalização, de que todo mundo, não só a economia, estava estreita e irremediavelmente ligado, passaram a defender a tese oposta, a do descolamento, de que o Brasil teria se descolado da crise, teria, portanto, se descolado do processo de globalização.
Do mesmo modo vão tentar esconder que a crise é uma crise do sistema capitalista constituído em economia mundial, crise do imperialismo, crise dos limites de sua reprodução, como nos mostra Lênin no Imperialismo, fase superior do capitalismo.
Só quem nunca passou por perto d’O Capital é capaz de imaginar que é possível organizar a “fúria” da concorrência, da luta fratricida, feroz, luta de vida e morte que se dá entre os capitais na concorrência, no processo de reprodução do capital.

“(...) A concorrência se desencadeia aí com fúria diretamente proporcional ao número e em proporção inversa à grandeza dos capitais rivais. Termina sempre com a ruína de muitos capitalistas menores, cujos capitais em parte se transferem para a mão do vencedor, em parte soçobram.” (KARL, Marx. O Capital. Vol. I, tomo 2, tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1984, pg. 197 – Os Economistas).

O que os novos renegados, revisionistas, reformistas, que se encobrem sob a capa de marxistas e usurpam a denominação de partidos comunistas não querem ver, porque na verdade ocupam o papel de defensores do capitalismo, como já dissemos de um capitalismo utópico, é de que não é possível reformar o capitalismo.
O único caminho para a classe operária, para as classes dominadas, para os povos dominados em todo o mundo é o de tomar o poder, destruir o capitalismo e construir o socialismo enquanto fase de transição para o comunismo.

5ª lição: A fase atual da crise do imperialismo.

Ao entrar em uma nova fase, a fase imperialista do capitalismo, desenvolvimento e crise, momentos coexistentes no processo de reprodução do capital, assumem novas características.
Marx já nos mostrava que desenvolvimento e crise são dois aspectos, unidos e em luta, do processo de reprodução do capital, necessariamente predominando em cada momento um ou outro, porque o desenvolvimento contém os elementos que vão gerar a crise, e a crise, os elementos que vão gerar uma nova fase de desenvolvimento. A crise está latente no desenvolvimento da mesma forma que o desenvolvimento na crise.

“Como se resolveria novamente esse conflito e se restabeleceriam as condições correspondentes ao movimento ‘sadio’ da produção capitalista? A forma da resolução já está contida na mera formulação do conflito de cuja resolução se trata (...).” (KARL, Marx. O Capital. Vol. I, tomo 2, tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1984, pg. 191 – Os Economistas).

O que nos cabe analisar para realizar a análise concreta da conjuntura que vivemos, não só a conjuntura imediata, mas a conjuntura do longo período de predominância da crise, que denominamos de crise latente ou como diria Engels uma crise “crônica”, “uma crise praticamente sem fim”, (ver cartas do Engels publicadas no blog), é que características assumem desenvolvimento e crise na fase imperialista do capitalismo, quando o capitalismo alcança a fase monopolista e se constitui em um sistema mundial, o imperialismo.
Lênin vai nos dizer que o fato de que o mercado externo deixa de atuar como fator contrarestante da crise, com o fim da partilha do mundo entre os trustes internacionais, da forma que o fazia no período de livre concorrência, vai levar ao agravamento das contradições interimperialistas.
Compreender o imperialismo como um sistema que reúne formações econômicas sociais num processo “único e contraditório”, no qual a contradição fundamental do sistema, a contradição da exploração capitalista, burguesia/classe operária, vai se desdobrar em contradições, distintas no mesmo processo, a contradição entre a burguesia dos países imperialistas associada à burguesia dos países dominados na exploração dos povos dos países dominados, na contradição interimperialista entre os capitais com os Estados a seu serviço, disputando mercados, refazendo permanentemente a repartição dos mercados, e por fim, na contradição entre capitalismo e socialismo, colocada pelo próprio desenvolvimento do capitalismo que torna a produção ainda mais social e a apropriação da riqueza produzida por um número cada vez menor de capitalistas.
A luta de classes é um terreno onde se trava o processo de produção/exploração capitalista. Se a cada momento é a base econômica que determina o espaço em que se trava a luta de classes é a luta de classes que constrói, determina o novo espaço econômico onde vai continuar travando sua luta.
O que Marx mostra n’O Capital é que o crédito, a criação de papéis que vão cada vez mais funcionando como moeda, é um instrumento intrínseco à produção capitalista, ao sistema capitalista. O que vai se transformando na medida em que o capitalismo vai evoluindo para a sua fase imperialista, é o peso e a forma como este sistema vai se conformando.

Sem levar isso em conta, com a produção capitalista constitui-se uma potência inteiramente nova, o sistema de crédito, que, em seus primórdios, se insinua furtivamente como modesto auxiliar da acumulação, levando por fios invisíveis recursos monetários, dispersos em massas maiores ou menores pela superfície da sociedade, às mãos de capitalistas individuais ou associados, mas logo se torna uma nova e temível arma na luta da concorrência e finalmente se transforma em enorme mecanismo social para a centralização dos capitais.
À medida que se desenvolve a produção e acumulação capitalista, na mesma medida desenvolvem-se concorrência e crédito, as duas mais poderosas alavancas da centralização (...)”
(KARL, Marx. O Capital. Vol. I, tomo 2, tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1984, pg. 197 – Os Economistas).

A ampliação contínua da produção capitalista vai exigir a cada circuito da produção mais capital, além daquele já produzido pela mais-valia a cada ciclo da produção. Dessa forma, cada vez mais o crédito se torna alavanca do processo de produção cada vez mais ampliado.
Os sucessivos rearranjos porque passa a economia capitalista, após a crise do início dos anos 70, com o objetivo de ampliar sua taxa de lucro, resultaram no gigantesco processo de deslocamento da indústria dos países imperialistas para regiões onde o preço da força de trabalho era muito mais barato, permitindo que se aliassem a enorme expansão da mais-valia relativa, resultado da construção/constituição de um parque industrial no estado da arte, com uma enorme elevação da mais-valia absoluta, tanto pela elevação da jornada de trabalho, como pela redução do preço da força de trabalho ao limite mínimo de sua reprodução.
O processo de reorganização da economia capitalista, iniciado na última década do século passado, não poderia ser feito, sequer pensado, sem a poderosa alavanca do crédito, sem esta fantástica máquina de valorização do capital na esfera financeira que, por outro lado, propiciou uma “demanda solvente”, condições cada vez amplas para a realização de mercadorias produzidas em escala crescente.
A idéia de que esta reestruturação fantástica da economia capitalista, fantástica pelo curto espaço de tempo em que foi feita (pouco mais de uma década) e pelo volume do movimento de capital não é pensável, sequer pensável, sem uma monstruosa máquina de crédito.
A diferença entre o papel que o crédito representou no período de Marx e o papel que representa hoje está não só no seu volume, como também no fato de que a cadeia de papéis derivados uns dos outros se assenta em papéis mais ou menos garantidos pelo Estado.
Hoje, num misto de horror, alívio e alegria, o nosso capital financeiro vê o Estado “estatizar” seus bancos para garantir seus lucros.
O que os teóricos burgueses não podem nem querem ver é que a atual crise é a crise estrutural do sistema capitalista mundial, do imperialismo.

8 comentários:

Zé Raimundo disse...

smsmaGostei.
Nunca ouvi falar dessa Suzanne de Brunhoff. Vou procurar o livro para comprar.
Deixa eu ver se eu entendi:
O capitalismo tem como sair de sua crise mas não tem como explicá-la.
Você fala:
"a burguesia não tem nenhuma condição de elaborar qualquer coisa parecida com uma teoria que explique a sua crise"
Fala ainda que existe uma mentira implícita nos argumentos da burguesia e que a esquerda acredita. Eles acreditam tanto que cobram sua eficácia.
Acreditam que o estado paira sobre a economia, que este estado é independente e pode, para isso é só ganhar as eleições, fazer as alterações necessárias para consertar tudinho.
Espero mais detalhes, principalmente naquilo que você diz sobre a atual fase do imperialismo. Não seria bom você mostrar a diferença da crise de 29 para a de hoje?
Ou não é bom comparar?
O que significa: "A crise está latente no desenvolvimento da mesma forma que o desenvolvimento na crise"?

Camilo disse...

Gostei do blog, está de parabéns quem o elaborou, no momento de retomada da discussão sobre o Marxismo este blog surge com uma grande contribuição.
Caríssimo Zé Raimundo,
Dado sua exposição sobre o assunto, vou tentar junto com você e os caros colegas deste blog esclarecer nossas dúvidas.
Bom pelo que eu entendo das explicações dadas por Marx e Engel sobre o Capitalismo, tanto a classe favorecida quanto os explorados são resultados deste sistema, de uma certa forma todos estão ganhos pela ideologia do sistema, eles não conseguem compreender o movimento do capital e logo não conseguem explicar suas crises. Só uma ferramenta como o Marxismo pode nos esclarecer a fundo como age o sistema, do contrário ficaremos “correndo atrás do próprio rabo”, ou seja, fazendo análises equivocadas e dentro dos limites da ideologia do sistema. O sistema capitalista trás em si a geração das suas crises, um modo bem simplório de explicar isso é o seguinte, se você tira de um lado alguma hora irá faltar do outro, e é nessa hora que a engrenagem começa a parar.
O que tanto a esquerda quanto os defensores do sistema acreditam é que o Estado pode regular a economia, ou que pode haver um Capitalismo limpinho. O fato é que o Estado cumpre seu papel de gestor dos interesses do Capital, são justamente as necessidades do sistema que vai moldar como será a gestão desse Estado. Numa outra oportunidade entrarei no debate da Fase Superior do Capitalismo – O Imperialismo. Espero ter contribuído com a discussão.

Abraços.

Camilo

Aphonso de Medeiros disse...

Zé Raimundo,

O texto mesmo afirma:
"... desenvolvimento e crise são dois aspectos, unidos e em luta, do processo de reprodução do capital, necessariamente predominando em cada momento um ou outro, porque o desenvolvimento contém os elementos que vão gerar a crise, e a crise, os elementos que vão gerar uma nova fase de desenvolvimento."

Como podemos demonstrar isso?
O aspecto desenvolvimento está contido no processo tendencial de valorização, do crescimento da massa de capital. O aspecto crise está contido no processo tendencial de queda da taxa de lucro, onde, sob os seus vários aspectos, a redução do valor da força de trabalho cumpre o papel de propulsor dessa expansão. Ao mesmo tempo em que cresce o volume do capital, agregando novas áreas e mais força de trabalho, ele reduz o percentual dessa mais-valia e do valor desta força de trabalho sobre o grosso desse capital. Cada vez mais capital, cada vez menos força de trabalho para produzir na mesma proporção esse capital, cada vez menos lucro na mesma proporção que esse capital.

"Espero mais detalhes, principalmente naquilo que você diz sobre a atual fase do imperialismo. Não seria bom você mostrar a diferença da crise de 29 para a de hoje?
Ou não é bom comparar?"
É bom comparar principalmente para mostrar o que hoje é singular, o que é diferente de 29 e afirmar os aspectos gerais comuns aos dois momentos.

Camilo,
Obrigado pelo seu comentário e, apesar ainda da pouca expressão desse nosso blog, espero que ele contribua, como você nos diz, para retomar de forma séria o Marxismo-Leninismo.
Espero contar, além dessas, com outras contribuições suas nesse debate.
Para que haja as cem flores precisamos plantar.

Anônimo disse...

Achei esse blog por aqui e ví que é interessante. Também acredito que a Burguesia pode encontrar fatores contra-restantes a essa crise do capital, mas não conseque explicá-la, é só olharmos os textos conjunturais que logo veremos que alguns tentam explicara crise pelo fato de que alguns burgueses foram gananciosos ou que faltou intervenção do Estado na economia e etc...
O mais grave é que a esquerda também não consegue explicar, mesmo que tenham alguns textos próximos da explicação, mas quando propõe a saida da crise estão na lógica de desenvimento do sistema.
Ouvir falar que capital portador de juros é um mecanismo de investimento que serve para ser aplicado na produção e depois retornar ao mercado especulativo valorizado, saindo deste retornando para produção com nova valorização, talvez isso explique o processo de superacumulçao do capital. Gostaria que vc comentasse um pouco mais sobre o capital portador de juros.

Antônio Pedro disse...

Olá,

Recebi a indicação do blog de um amigo e resolvi conferir. Ainda não li tudo, mas estou gostando dos textos. Comecei a estudar economia, abandonei o curso, mas não deixei de ter interesse. Sobre seu último texto, concordo que praticamente todas as análises dos economistas forma um mar de lamentações, mas não conseguem explicar verdadeiramente como o sistema entrou em crise. Bom, eu não conhecia a obra de Suzanne de Brunhoff, mas vou procurar seus livros, pois pelo que parece valem ser lidos. Como contribuição para o debate (segundo meu amigo, neste blog tem debate) eu gostaria que fossem levantados aspectos relacionados tanto ao peso como a forma do sistema de crédito na etapa monopolista do capitalismo, e como funciona isso de o estado garantir os papéis. Isso não foi sempre assim?
abraço,
Antônio Pedro

wando disse...

Caro Aphonso,
não quero criar outra conta de e-mail, por isso entrei como anônimo. De qualquer forma meu nome é Wando e gostaria de saber mais sobre capital portador de juros.... Pelo brilhante texto postado, acredito que você poderá contribuir com meus conhecimentos.
Saudações.

Patrícia disse...

Caros,

Estou querendo debater estas questões e achei ótimo este blog.

Concordo com o Antônio Pedro que é importante levantar aspectos sobre o papel do sistema de crédito no capitalismo (e especificamente em sua etapa monopolista, o imperialismo), assim como o Estado garantir as chamadas moedas de crédito privadas (os "papéis mais ou menos garantidos pelo Estado", como está no texto do blog). O texto bem ressalta o papel do crédito:

"A ampliação contínua da produção capitalista vai exigir a cada circuito da produção mais capital, além daquele já produzido pela mais-valia a cada ciclo da produção. Dessa forma, cada vez mais o crédito se torna alavanca do processo de produção cada vez mais ampliado."

Como forma de contribuir para esta discussão, vou tentar expor como compreendi este papel do crédito e sua ligação com as moedas de crédito privadas. Aqui estou somente usando como fonte os livros já citados no blog e tentando expor o que acho que seja um pequeno pontapé inicial para que o pessoal do blog me ajude a compreender/sistematizar melhor.

No processo de acumulação capitalista, o capital se apresenta em diferentes formas: seja sob a forma de mercadorias (produtos, assim como a força de trabalho), de crédito, de capital industrial, comercial. O processo que se caracteriza como capitalista é aquele em que se tem o ciclo D-M-D', capital dinheiro (D) que através do processo de produção de mercadorias (M) produz mais capital porque nele está embutido a produção de mais-valia pela força de trabalho. A produção de mais-valia ocorre sempre na esfera produtiva, pois a força de trabalho é comprada por um valor (cujo preço em termos monetários é o salário) pelo capitalista, que utiliza esta força de trabalho para empregar produtivamente os meios de produção, gerando mercadorias cujo valor é maior que o valor original dos meios de produção consumidos para produzir esta mercadoria (e este valor maior é a mais-valia - objetivo final da produção capitalista). Com a venda desta mercadoria tem-se a realização da mais-valia produzida, ou seja, ela transforma-se num valor maior de capital que antes deste ciclo (D'). Esta mais-valia deve ser reaplicada à produção para que ocorra mais produção de mais-valia, ou seja, para a reprodução ampliada do capital. Assim, o modo de produção capitalista é a produção necessariamente crescente, ampliada, da mais-valia, do capital, por meio da produção dos objetos de utilidade social, de mercadorias, e, portanto e necessariamente, da exploração crescente, “ampliada”, da força de trabalho, por meio da produção.

Um dos papéis do crédito (seria este seu principal papel?) é possibilitar a reposição das condições de produção de forma independente da realização prévia do valor produzido (continuação da produção independente da venda da produção anterior).
Ou seja, permitir a realização do ato D-M sem a realização prévia de M-D'. O crédito, então, permite acelerar, alavancar a reprodução ampliada do capital. Esta independência entre os ciclos tem limites impostos pela lei de circulação de mercadorias, pelo dinheiro disponível para funcionar como capital de crédito. O desenvolvimento deste capital bancário leva à possibilidade dos bancos de disporem aos capitalistas mais capital do que é recolhido dos que abdicam do uso do capital no ciclo D-M, originando um crédito, que é uma forma antecipada de um valor ainda não realizado, que se apresenta sob a forma de crédito para produção, crédito para o consumo (estes são os tais papéis, títulos, moeda de crédito dos bancos).

Esta forma antecipada do valor, criação de moeda de crédito pelos bancos privados, é “dinheiro” posto em circulação pelos bancos. Estas moedas de crédito privado não se distinguem da moeda em circulação e devem ser sancionadas, reconhecida pelo Estado através de seu Banco Central, uma vez que a falta de reconhecimento social destas moedas afeta a própria moeda em circulação (o valor de cada unidade monetária). Conforme li e gostei de como foi exposto, a contradição fundamental do sistema capitalista (burguesia / proletariado que se expressa no caráter social da produção e apropriação privada capitalista) pode também apresentar-se como uma contradição criação privada / validação social da moeda de crédito com o papel de destaque que o crédito assume no capitalismo, essa “(...) nova e temível arma na luta da concorrência (...) [que] se transforma em enorme mecanismo social para a centralização dos capitais”.

Abracos,

Patrícia

Antônio Pedro disse...

Quero agradecer à Patrícia, que escreveu coisas muito interessantes que me ajudaram a pensar nos tais "papéis mais ou menos garantidos pelo Estado". O pouco que li de O Capital não me permite criticar as colocações sobre o ciclo D-M-D’ e suas particularidades, mas isso já foi levantado pela Patrícia. Eu acho que podemos afirmar que o crédito é indispensável para a acumulação ampliada do capital e, quanto maior a escala da acumulação, evidentemente maior a escala de crédito necessária para continuar esse processo. Se retomarmos as indicações de Lênin – e aqui agradeço a um colega que chamou minha atenção para esse texto, praticamente esquecido pela maioria dos professores de economia – em O Imperialismo sobre o “novo papel dos bancos”, veremos que aquilo que ele passa a chamar de capital financeiro tem significado diferente daquilo escrito por Marx em O Capital: eu penso que Lênin foi além de Marx, ele notou uma transformação profunda da estrutura do capitalismo (acho que é por isso que ele chama o imperialismo de etapa superior do capitalismo). Bom, eu acho que nem por isso o capitalismo deixou de ser capitalismo, ou seja, a necessidade sempre crescente de crédito, seja para consumo produtivo, seja para consumo final, nesta nova etapa, só fez aumentar. Patrícia escreveu que a “(...) criação de moeda de crédito pelos bancos privados, é “dinheiro” posto em circulação pelos bancos. Estas moedas de crédito privado não se distinguem da moeda em circulação e devem ser sancionadas, reconhecida pelo Estado através de seu Banco Central, uma vez que a falta de reconhecimento social destas moedas afeta a própria moeda em circulação (o valor de cada unidade monetária).” Isso é muito interessante, porque nos livros de economia a questão da inflação está (pelo menos até onde vão meus conhecimentos) geralmente associada à emissão de moeda pelos bancos centrais. Então, se os papéis privados não se diferenciam da moeda nacional, essa questão passa a ter outra dimensão, e não seria por acaso que os tais “salvamentos” de bancos e grandes companhias que temos assistido estão ocorrendo sem maior cerimônia: trata-se de uma troca de papéis, títulos “podres” por dólares/euros/ienes/etc., para assegurar o reconhecimento social dos tais títulos. Mas isso é somente uma questão que levanto. Apenas para dar voz a um professor de economia, na revista Conjuntura Econômica deste último janeiro, na matéria “O pior ainda está por vir”, do professor Yoshiaki Nakano, da FGV, ele afirma: “A atual crise financeira não é uma crise do setor de financiamentos de hipotecas imobiliárias. Foi desencadeado por este setor, mas o que entrou em colapso foi um modelo de negócios financeiros que gerou o maior “boom” de crédito na história humana, baseado na alavancagem excessiva, na securitização de dívidas convertidas em derivativos tóxicos, na criação de um sistema bancário paralelo, com a multiplicação de operações fora do balanço e a suposta neutralização do risco com seguros de crédito, sem regulação e sem controle.” Quer dizer, se estamos assistindo ao estouro do “maior ‘boom’ de crédito na história humana”, fica outra questão, já pensando além do título da matéria do professor Nakano: o que virá depois?

Um abraço,

Antônio Pedro