quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Elementos de Autocrítica - Althusser

Retirei alguns trechos de um artigo de Althusser, grande comunista francês, um dos expoentes da retomada do marxismo para o seu leito revolucionário [Posições. Elementos de Autocrítica. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1978]. São trechos que conclamam não somente a falar na defesa do marxismo, mas praticá-lo cientificamente. Exercício esse que significa escoimar quaisquer aspectos teoricistas, positivistas e especulativos.

Tarefa que na luta de classes significa, como nos ensina Althusser: “mesmo se for preciso - e é preciso – ‘trabalhar’ até o infinito no seu traçado, para evitar a queda no positivismo e na especulação”. Se mover na luta sob a luz dessa teoria. Elevar a luta para que essa luz brilhe mais intensamente, para que a classe operária sob essa claridade possa ver a si mesma, sua condição e sua força, ver o seu inimigo e derrotá-lo. Levar a classe operária a aprender por si mesma a reconhecer nessa luta a possibilidade do futuro comunista.

(...) podemos nos declarar a favor da teoria marxista, mas defendê-la em posições especulativas, portanto não-marxistas; da mesma forma podemos nos declarar a favor da ciência marxista, mas defendê-la em posições positivistas portanto não-marxistas - com todos os efeitos subseqüentes. Ora, só podemos defender a teoria e a ciência marxista em posições materialista-dialéticas, portanto não-especulativas e não-positivistas, tentando pensar essa realidade propriamente inaudita, porque sem exemplo: a teoria marxista como teoria revolucionária, a ciência marxista como ciência revolucionária.
O que é propriamente inaudito nessas expressões é aliar teoria a revolucionária (“sem teoria/objetivamente/revolucionária, não há Movimento/objetivo/revolucionário”. Lênin), e porque ciência é o indício da objetividade da teoria, aliar ciência a revolucionária.
(Página 88)

(...) Temos então o direito e o dever, como o fizeram todos os Clássicos, de falar de teoria marxista, e, no seio da teoria marxista, de uma ciência e de uma filosofia, sob reserva de não cair no teoricismo, na especulação ou no positivismo. E para ir diretamente ao ponto mais sensível: sim, temos teoricamente o direito e politicamente o dever de retomar e de defender, a propósito do marxismo-leninismo, na trincheira da palavra, a categoria filosófica de “ciência”, e de falar da fundação por Marx de uma ciência revolucionária, encarregada absoluta de nos explicar as condições, a razão e o sentido desse binômio inaudito, que faz “mexer” algo de decisivo na nossa idéia da ciência. (Página 89)

(...) Sim, temos razão de falar de um núcleo científico irrecusável e incontornável no marxismo, aquele do Materialismo histórico, a fim de traçar uma linha vital de demarcação, nítida, sem equívoco (mesmo se for preciso - e é preciso – “trabalhar” até o infinito no seu traçado, para evitar a queda no positivismo e na especulação) entre, de um lado, os proletários que têm necessidade de conhecimentos objetivos, verificados e verificáveis, enfim científicos , para triunfar, não em frases, mas nos fatos, de seus adversários de classe; e, de outro lado, não somente os burgueses que, evidentemente, recusam ao marxismo qualquer título científico, mas também aqueles que se contentam com uma “teoria” pessoal ou presumível, fabricada por sua imaginação ou 'desejo' pequeno-burguês, ou que repudiam toda a idéia de teoria científica, e até a palavra ciência, e mesmo teoria, sob o pretexto de que toda ciência ou mesmo toda teoria seriam na essência “reificantes”, alienantes, e portanto burguesas. (Páginas 89 e 90)

4 comentários:

Aline Maria disse...

Camarada Aphonso,

Após ler o texto de Althusser, coloquei-me uma questão que, pretensiosamente, julgo ser importante também para os camaradas e amigos que acessam o blog: se as afirmações abaixo, de Althusser e de Prestes, forem levadas até seus limites, ou seja, se abstrairmos por um momento a reconhecida combatividade de incontáveis camaradas que lutaram em nome do socialismo e do comunismo, contra o imperialismo, então só podemos concluir que praticamente tudo aquilo que foi divulgado e defendido como marximo em nosso país, seja pelo antigo PCB, seja pelos partidos e organizações que dele surgiram, não passava de uma fenomenal incompreensão do marxismo, ou seja, de posições não-marxistas, isto é, no campo das ideologias burguesas. Extrapolando um pouco mais, e tomando ao pé da letra a máxima leninista de que "sem teoria revolucionária não há prática revolucionária", também chegamos à conclusão estarrecedora de que não seria possível portanto construir essa prática revolucionária.

Althusser:
"(...) podemos nos declarar a favor da teoria marxista, mas defendê-la em posições especulativas, portanto não-marxistas; da mesma forma podemos nos declarar a favor da ciência marxista, mas defendê-la em posições positivistas portanto não-marxistas - com todos os efeitos subseqüentes. (...)"

Prestes:
"(...) a teoria revolucionária significava para nós, membros do partido, aplicar mecanicamente, livrescamente, a linha política e a experiência revolucionária de outros povos. E era isso mesmo o que se dava. Caíamos no pior dogmatismo, o dogmatismo da cópia, o dogmatismo dos modelos (...)" (trecho de intervenção no "Seminário Internacional 70 anos de experiência de construção do socialismo”, organizado pelo Instituto Cajamar, em 1987, e transcrito no site do Centro Cultural Antonio Carlos de Carvalho, do Rio de Janeiro)

Sei que pode parecer frieza de minha parte, mas se queremos ser de fato materialistas, isto é, se queremos de fato aplicar o marxismo-leninismo, essa análise é necessária, sem prejuízo dos camaradas que lutaram e que tombaram na luta anti-capitalista.

Eu gostaria de ler o texto de Althusser na íntegra, mas aqui em minha cidade há muitos poucos sebos ou livrarias. Seria pedir demais que o texto integral fosse disponibilizado? De qualquer forma, acredito que os trechos selecionados e postados no blog são muito provocantes e já me ajudaram a pensar.

Aline Maria

Wander disse...

Camarada Alphonso,


A questão colocada por Althusser torna-se de extrema atualidade.
Não se pode ser marxista sem seguir a obra de Marx, ou seja, sua teoria.
Essa constatação, longe de ser óbvia, parece necessitar ser cada vez mais repetida, levando em conta a multivariedade de tendencias e linhas que tem se constituido históricamente, todas sob o rótulo de marxismo.
Essa variedade de concepções, em última análise, pode ser a causa da atual apatia revolucionária que atinge ao universo marxista da atualidade.
A correção da letra máxima leninista, segundo a qual "sem teoria revolucionária não há prática revolucionária", não somente explica essa apatia como fornece o norte a ser seguido pelo marxismo atual, na medida em que ela restabelece a teoria marxista como o rumo a ser seguido para o presente e para o futuro.
Não se pode, até o momento, construir uma teoria que se coloque, ao mesmo tempo como fator de identificação do capitalismo em todas as suas peculiariadades e complexidades e também como alternativa a esse modelo de desenvolvimento humano.
A teoria marxista se mostra através dos tempos como a única capaz de realizar essa façanha se mantendo dessa forma como alternativa teórica válida por todo esse período desde a sua formulação.
Ao definir o conceito de ideologia, a teoria marxista aponta para a compreensão de todos os eventos sociais e políticos ocorridos no século XX.
Althusser em seu texto, nos mostra esse poder da ideologia, tão bem identificado também por Mészáros, que coloca quase tudo o que se fez e se escreveu no século XX, sob o título de marxismo, também sob o subtítulo de ideologia.
Não se trata de denunciar criticamente o que se fez no passado, muitas vezes com gestos de heroísmo, mas de compreender que, conforme a teoria nos mostra, a ideologia dominante do capital, tem a capacidade de transformar tudo em seu oposto, fazendo com que, mesmo aqueles gestos, acabem servindo de instrumento para a ideologia burguesa para desmerecer e criticar o marxismo.
Nesse aspecto a autocrítica de Althusser, mostra-se como a recuperação da teoria que se mostra assim como o pensamento, dialéticamente como ele e olhando sempre para a frente como ele.
É esse o rumo que se mostra a ser seguido.

Vantuir disse...

A camarada Aline Maria escreveu recentemente, comentando uma postagem que reproduziu trechos de “Elementos de Autocrítica”, de Althusser e fazendo uma conexão com uma esclarecedora intervenção do histórico dirigente comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes que “(...) só podemos concluir que praticamente tudo aquilo que foi divulgado e defendido como marximo [sic] em nosso país, seja pelo antigo PCB, seja pelos partidos e organizações que dele surgiram, não passava de uma fenomenal incompreensão do marxismo, ou seja, de posições não-marxistas, isto é, no campo das ideologias burguesas.”
Numa primeira aproximação, creio que são justas suas afirmações, mas, pergunto à camarada: como essa “fenomenal incompreensão do marxismo” se expressou na prática, e por quê? Sem querer provocar polêmica, e, no espírito de debate franco que tenho observado neste espaço, gostaria de propor algumas ponderações, tendo como base outro texto de Althusser.

“A luta de classes é o motor da história”, é uma tese marxista fundamental enunciada no Manifesto do Partido Comunista, de 1847. Em que pese a repetição à exaustão desta tese por muitos daqueles que se acusam “marxistas”, mas que na prática abandonaram o marxismo sob o peso do longo período de defensiva do proletariado na luta de classes, vale ler com atenção alguns preciosos conselhos de Althusser, em sua Resposta a John Lewis (Posições 1, Ed. Graal, 1978). Nesse texto ele retoma (numa nota!) a famosa carta de Marx ao amigo Weydemeyer, de 5 de março de 1852, na qual escrevia:

“(...) não me cabe o mérito de haver descoberto, nem a existência das classes, na sociedade moderna, nem a luta entre elas. Muito antes de mim, historiadores burgueses há haviam descoberto o desenvolvimento histórico dessa luta entre as classes e economistas burgueses haviam descrito sua anatomia econômica (...)” [Marx-Engels, Obras Escolhidas, Rio. Ed. Vitória, 1963, v.3, p.253-4]

O debate que estava colocado na “Resposta” era, fundamentalmente, entre a posição idealista que era (e é!) majoritária no movimento revolucionário, e a posição marxista, defendida por Althusser. Ele usou o trecho da carta de Marx para tocar na questão fundamental do materialismo dialético: o primado da contradição sobre os contrários.

Segundo Althusser, “a tese do reconhecimento da existência das classes sociais e das lutas de classes não é particular ao marxismo-leninismo: pois esta tese põe as classes em primeiro plano e a luta de classes em segundo. Sob essa forma, é uma tese burguesa, que naturalmente alimenta o reformismo. A tese marxista-leninista, ao contrário, põe a luta de classes em primeiro plano. Filosoficamente, isso quer dizer: ele afirma o primado da contradição sobre os contrários que se enfrentam, que se opõem. A luta de classes não é o efeito derivado da existência das classes, que existiriam antes (de direito e de fato) de sua luta: a luta de classes é a forma histórica da contradição (interna a um modo de produção) que divide as classes em classes.”

Ou seja, ao que parece muitos “marxistas” lêem Marx de forma idealista, subjetivista, querendo a todo custo ver o que não existe, "contando histórias", querendo ver força maior que a realmente existente, querendo atribuir à “luta de classes proletária”, isto é, a um dos contrários, feitos que, na realidade, são devidos única e exclusivamente... à luta de classes, ao movimento irresistível do capital, que “subsume” explorados e exploradores... (como diz a 2ª lição da crise, também postada aqui no blog).

Ainda Althusser, demarcando o campo:

“(...) Para os reformistas (mesmo que se declarem marxistas) não é a luta de classes que está em primeiro plano: são as classes. Tomemos um exemplo simples, supondo que não haja senão duas classes em jogo. Para o reformista, as classes existem antes da luta de classes, um pouco como dois times de futebol existem, cada um de seu lado, antes da partida. Cada classe existe em seu próprio campo, vive em suas próprias condições de existência; uma classe pode até mesmo explorar a outra, mas não se trata ainda de luta de classes. Um dia, as duas classes se encontram e se enfrentam; somente então começa a luta de classe. Trocam socos, o combate se faz agudo e, finalmente, a classe explorada derrota a outra (é a revolução) ou sucumbe na luta (é a contra-revolução). Que se vire e revire a coisa à vontade, sempre se encontrará a mesma idéia: as classes existem antes da luta de classes, independentemente da luta de classes e a luta de classes existe somente depois.

Para os revolucionários, ao contrário, é impossível separar as classes da luta de classes. A luta de classes e a existência das classes são uma só e mesma coisa. Para que haja classes numa “sociedade”, é preciso que a sociedade seja dividida em classes; essa divisão não se faz post festum; é a exploração de uma classe por outra e, portanto, a luta de classes que constitui a divisão em classes. (...)”

Enfim, cara Aline, em minha opinião, é a não compreensão de fundo, teórica, do marxismo e de seus conceitos elementares, ou em outras palavras, a não compreensão de que o marxismo é uma ciência e como tal deve ser tratado, estudado e desenvolvido, que leva à sua “(...) conclusão estarrecedora de que não seria possível portanto construir essa prática revolucionária.”

Como tive a oportunidade de escrever anteriormente, apoiando-me em Mao, “(...) é preciso “mudar de pele” para avançar. Isso só pode querer dizer, em minha opinião, que o processo de qualquer pessoa ir tendencialmente abandonando os pontos de vista da ideologia burguesa não ocorre sem luta (sem dor), porque essa ideologia está “entranhada”, porque todos estamos “impregnados” dela.”

Afinal, como a camarada percebeu, “(...) podemos nos declarar a favor da teoria marxista, mas defendê-la em posições especulativas, portanto não-marxistas; da mesma forma podemos nos declarar a favor da ciência marxista, mas defendê-la em posições positivistas portanto não-marxistas - com todos os efeitos subseqüentes.”

E por “efeitos subseqüentes” podemos pensar em praticamente toda a trajetória do PCB e das organizações que dele surgiram, suas posições de conciliação de classes que levaram a enxergar a ‘burguesia nacional’, suas oscilações brutais, enfim, sua incompreensão do marxismo e das características únicas da luta de classes em nosso país.

Vantuir

Aline Maria disse...

O camarada Vantuir escreveu, a propósito de um comentário postado por mim, se bem entendi sua questão, que apesar de correta minha constatação (que não se pretendia mais do que isso, uma constatação), da “fenomenal incompreensão do marxismo” manifesta na trajetória dos comunistas brasileiros, a partir do antigo PCB e das organizações que dele surgiram, é necessário um aprofundado estudo sobre como e porque isso ocorreu. Acredito que o camarada esteja levantando uma questão justa, pois, em minha opinião, é preciso estudar com detalhe a trajetória dos comunistas em nosso país, evidentemente à luz da teoria marxista e das experiências revolucionárias e de construção do socialismo no mundo.

Concordo com a afirmação do camarada Vantuir, de que "(...) é a não compreensão de fundo, teórica, do marxismo e de seus conceitos elementares, ou em outras palavras, a não compreensão de que o marxismo é uma ciência e como tal deve ser tratado, estudado e desenvolvido (...)" que levou e leva aos erros na condução da política.

Creio que a maioria das pessoas "de esquerda" compreende muito pouco da teoria marxista, e se limita a repetir fatos e histórias, enfim, folclore sobre as experiências revolucionárias, sobre este ou aquele líder, sem se preocupar com o estudo meticuloso da realidade e da teoria, e isso não ajuda em nada a avançarmos na construção de uma teoria da revolução brasileira, isto é, a avançarmos na fusão da teoria marxista com a realidade brasileira.

Eu penso que são vários os obstáculos a esse avanço, mas um deles me parece ser de grande importância: o desprezo generalizado pelo estudo da teoria, das ciências em geral e do marxismo em particular. E isso se torna mais preocupante numa época em que mesmo ramos da ciência que poderíamos julgar consolidados, como o evolucionismo/darwinismo na biologia são abertamente atacados, e concepções francamente retrógradas como o criacionismo avançam livremente. Que dizer do marxismo, não? Se bem me lembro das discussões iniciais neste blog, os camaradas fizeram questão de demarcar essa necessidade de estudar seriamente o marxismo como condição incontornável para avançar. Resta a também importante questão de como organizar esse estudo, ou como diria Lenin, "Por onde começar?".

Entendo que há muito que fazer, mas nesse sentido gostei do trecho da postagem "Sobre as cem flores II", do camarada Mao, postada no blog: " (...) Há muitos assuntos que não entendemos e que, por conseqüência, não sabemos como abordar; mas, através da discussão e da luta, chegaremos a compreendê-los e a resolve-los. A verdade desenvolve-se na confrontação das diversas opiniões. Este método permanece válido em relação ao que é venenoso e antimarxista, pois é na luta contra o que é antimarxista que o Marxismo se desenvolve. É o desenvolvimento através da luta dos contrários, o desenvolvimento dialético das coisas (...).”

São veículos como este blog que nos ajudam nessa tarefa, estimulando a discussão que realmente importa e promovendo a divulgação do marxismo. Agradeço ao camarada Vantuir pelas observações, e espero que minhas colocações, apesar do nível de elaboração certamente insuficiente, possam contribuir para o debate.

Aline Maria